AS ARMAS DOS HOMENS

Miguel Paiva, Cartunista

Numa época em que a Internet aproxima pessoas e idéias, a psicanálise revê conceitos e reforça sua tarefa de não tentar curar o mal e sim estimular o bem encaminhando os pacientes para a felicidade a que tem direito, a neurociência busca entender e tratar os distúrbios do comportamento, os veículos de comunicação descobrem que a estrada para a sobrevivência passa pelo crescimento do nível de informação dos seus leitores ou espectadores, vivemos por outro lado, a manifestação mais arcaica e retrógrada da cultura bélica masculina numa reedição pobre, mas poderosa das cruzadas pelas mãos de Bush e seus Cavaleiros da Tabula Redonda. Só quem não queria não via as intenções espúrias nas justificativas para a invasão do Iraque. O que Bush planejava era justamente criar um foco constante de conflito onde pudesse apoiar toda a sua ideologia conservadora de resolver os conflitos que ele mesmo cria pela força, matando então, dois coelhos com um míssil só. Sedimenta seu poder de xerife do mundo-agora juntando onipotência e onipresença com sua aparição surpreendente no aeroporto de Bagdá para comemorar o dia de Ação de Graças com seus cruzados -e presenteia a industria bélica mundial com uma fonte constante de faturamento. Guerras alimentam guerrilhas, que alimentam o terrorismo, que alimenta outras guerras que alimentam os bolsos dos senhores produtores de armamentos. Parece totalmente absurdo e distante de nossa realidade inquieta a busca de novos caminhos para a felicidade da humanidade. Diante de tamanha estrutura de relações internacionais, de jogos de poder, de comércio planetário e de avanço tecnológico “do mal”, digamos assim, nos sentimos quase ridículos em questionar sentimentos, comportamentos de gênero, novas posturas e questões da alma humana. Mas não devemos nos sentir assim. Fazemos parte justamente dos adversários desses poderosos de capa e espada que não só acabaram de eliminar qualquer dignidade que as antigas guerras ainda podiam guardar e que a história ajuda a rever, como tentam implantar a força como solução numa época em que as questões primordiais dos seres humanos passam pela luta contra a fome, a guerra contra a Aids e novos caminhos para o entendimento entre países ricos e pobres. Se não acharmos esses caminhos estaremos alimentando a fome desses guerreiros das trevas que vivem escondidos justamente em nossas hesitações e inseguranças. Nossa maneira de guerrear é justamente essa, criar novas munições que neutralizem a força bélica, novos medicamentos contra armas químicas, novas marchas de protesto contra novas invasões, novos discursos contra a farsa e uma rede de comunicação cada vez maior contra a mentira e o monopólio da informação que ainda tentam desorientar e manipular a cabeça de todos nós.
A força criativa do sexo masculino, sua capacidade de elaborar pensamentos e idéias, sua disposição física para qualquer tarefa, sua curiosidade infinita, seu senso de orientação e a capacidade de administração de questões e projetos são, na realidade, esses novos-velhos valores que devemos resgatar dos escombros que até hoje a raça humana, com a administração masculina vem criando. Não devemos mais creditar coerência alguma aos fundamentalistas, não importa de que lados estejam. Nós, homens, de uma certa forma, também somos fundamentalistas apesar de toda a capacidade de questionamento, até mesmo de nós mesmos, mas não como um exercício diário e doméstico de autocrítica, e sim nos colocando dentro de um comportamento coletivo, o que dilui ou nos exime de maiores responsabilidades individuais. Do mesmo modo em que corremos ou exercitamos a musculatura para manter a saúde de todo o organismo temos que refletir sobre nossa condição para exercitarmos a capacidade criativa e manter nossa saúde mental e afetiva. O excesso de certezas neutraliza a inquietação e com isso embota o pensamento, o sonho e a ousadia criativa de viver da maneira mais feliz.

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