Nestas terras onde o humor tem a face de Justo Veríssimo e seus Estados Anysios de Chico City, Lenny Bruce (1925-1966), comediante que tirou o sono da autoridade da sacrossanta paz americana nas décadas de 50 e 60, talvez signifique pouco para nós. Mas ele tinha pelo menos uma boa provocação que serve bem para seus primos pobres de continente: a idéia de que o sossego da experiência sexual homem mulher estava condenada pela moral social. Em linhas gerais, acreditava que a palavrinha censura era muito mais suja do que dizer o trissílabo iniciado com B que simboliza “oral sex”.
Pois na terra de N. S. Liberdade, Bruce foi um dos furúnculos humanos, que perturbava o bom-mocismo pregado pelos caubóis da velha Hollywood. Nascido na era onde ainda éramos (e fomos por um breve tempo) modernos, ele morreu carregando um estandarte da provocação para alegar que a Modernidade tardia, ou seja, o bundalelê posterior a Andy Warhol e seu POPIPOCA era o prenúncio de uma era de calças na mão, sem a virilidade de enxergar seus desígnios e leis.
Gary Cooper, signo supremo do que era ser do Masculino, assim, em caixa alta, já não possuiria mais lugar dos anos que se seguiriam. Sobretudo, com o bordão que lançou em Matar ou morrer: “Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer”. E isso também afetou a turma brasilis.
Deu bububú no bobobó da macheza brasileira. E a geléia total pós-moderna passou a anunciar (e não mais ser anunciada) pelas páginas e “homepáginas” da mídia tupiniquim. O sinal primeiro da entropia do homem brasileiro, que no imaginário ficcional da telona e da telinha um dia foi herói Jerônimo, reduziu-se à imagem HQ de Urbano, o aposentado, das tiras do Globinho. E começou aí a Quarta-feira de Cinzas da concepção do provedor de falo em riste.
Ao contrário do que se faz lá pelas bandas do Tio Sam, onde a imagem de John Wayne atravessa décadas de correção e incorreção política, o Brasil foi confinado, sobretudo depois do Cinema Novo, à condição de Macunaíma. Nossa imagem de protagonista das narrativas não é a do Hércules de capa e espada, mas a do malandro da Lapa que reza a cartilha da lei de Gerson.
Hugo Carvana, ator de vastos recursos dramáticos e diretores igualmente talentosos, captou bem o que se crê por aí em seu Vai trabalhar, vagabundo. Sucesso dos anos 70. O mesmo se deu nas telenovelas com a profusão de tipos como Zeca Diabo, Sinhozinho Malta e Odorico Paraguaçu que, apesar de viris, descambavam para o jeitinho de passar a perna nos adversários em lugar de puxar o tresoitão.
A construção dessas figuras, com um pé na tradição pícara ibérica apareceu conjugada na primeira do plural com toda a cinematografia latina, que transpirava implicância contra a estética americana de contar histórias. Mas isso foi antes da política ganhar rédeas neoliberais e o imperialismo ganhar o apelido de globalização.
Desse momento em diante, a mídia comprou o discurso que ser homem _ incluindo aí o compromisso assumir o auto-sacrifício como uma contingência do heroísmo, assim como o respeito aos valores de antanho _ é feio, chato e fica fora de foco na telinha do Big Brother. E nos tempos onde Pedro Almodóvar virou gênio supremo da raça, com todas as suas limitações de realizador, acreditar até o sonho de levar a menininha mais bonita no bairro pra passear virou pecado condenado à fogueira. E a ética, nesse momento, foi tomar um café na lua e ficou lá.