Exclusivamente em casos extremos. Mas afinal, será que é preciso chegar até este ponto? Expor uma criança a situações de abuso e violência até que a justiça resolva quebrar o tabu que fez da mãe alguém imaculada e intocável?
Isto é o que tem acontecido diariamente nas varas de família do Rio de Janeiro. Para uma mulher deixar de ter a guarda de uma criança é necessário que ela for publicamente à encarnação da escória. Este aspecto parece ser um consenso entre a maioria dos advogados desta cidade quando são consultados por homens que desejam cuidar de seus filhos (as) depois de uma separação.
Diariamente encontramos no consultório mulheres e homens filhos de mães coniventes ou autoras de abuso e violência durante a infância. Relatos que permanecem como segredos, guardados durante anos sob o bastião do terror. Depois de terem suas vidas marcadas e a inocência traída, estas crianças crescem inseguras e temerosas, sinalizando para nós um sofrimento profundo gerado por quem a lei trata como imaculada e inquestionável.
É bom lembrar que sob pretexto de serem representantes da doçura, da delicadeza e da maciez, o feminino nesta cultura também se revela em Medeia e Jocasta. A violência da mulher, diferente da do homem se exerce na invisibilidade, mas produz danos nem sempre vistos a olho nu. Quando um homem age violentamente, o faz pela força física e o dano causado pode ser medido. Mas admitir que uma dona de casa, uma executiva, uma professora, uma doméstica ou uma mãe possa ser violenta ainda é um tabu. Se uma mulher bate ou violenta uma criança isto é considerado sinal de correção, firmeza e educação. A sociedade é permissiva para com esta atitude, mesmo que os dados disponíveis na ABRAPIA nos indiquem que no cenário doméstico a mulher é o principal agressor da criança.
E as varas de família, por que será que não consideram estes dados quando avaliam o pedido de guarda feito por um homem?
O que acontece no coração de quem representa a justiça, diante dos dados sobre violência contra crianças? Por que se coloca impassível diante do pedido de guarda solicitado por um homem?
Parece que o que o (a) deixa temeroso (a) é o fato de quebrar uma corrente psico-cultural que define o filho como um objeto da mãe, objeto que ela pode manipular e carregar como um patrimônio. Ou será que alguns dos operadores do direito, que já foram crianças e também vítimas de algum tipo de violência, passaram a se identificar com o agressor perpetuando assim esta cadeia perversa através da máscara da lei?
Enfim, enquanto a justiça não revê suas atitudes continuamos vendo meninas e meninos ouvindo que “tapinha não dói”, ou ainda “tá dominado” (...) "mexe, enfia, remexe” como slogans que refletem o projeto de uma sociedade omissa, comprometida com a popularização e divulgação de uma determinada sensualidade brasileira “moderna”.
Esta cultura emancipada, sem censura, liberada e politicamente correta impôs aos homens um certo constrangimento quando estes desejam exercer seus direitos. Esta mesma sociedade vem banalizando a masculinidade e transformado-a em algo "de direita", retrógrada e ultrapassada mantendo o preceito de que os filhos (as) devem ficar preferenciais e exclusivamente sob os cuidados da mãe. E talvez esta atitude esteja correta, afinal deve haver um propósito em tudo isto: nos convencer que zelo mudou de nome e se transformou na indústria do se dar bem.